sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Canção Fúnebre



Canção Fúnebre
Por um filho de Xangô

Era vinte de novembro de 1695, na Serra da Barriga, Alagoas, um canto fúnebre ecoava tendo ao fundo o toque dos tambores:

Por que tu não morre Zumbi?
Por que tu não morre?

E a pergunta era respondida
Por egum que circulava na mata
Na forma de um guerreiro que sempre vive
Dando vida a um guerreiro que não se mata...

Por que tu não morre Zumbi?
Porque nasci guerreiro
Não o primeiro
Mas vou resistir.

Por que tu não morre Zumbi?
Porque antes de mim veio Ganga Zumba
E lutou essa luta profunda
Que vai me consumir

Por que tu não morre Zumbi?
Porque todas as negras crianças
Que tem e terão esperanças
Aguardam o meu porvir

Por que tu não morre Zumbi?
Porque o seio da mulher negra
Que alimentou negro, branco e mulato
Tem esperança que um dia a justiça chega
Justiça de verdade e de fato

Por que tu não morre Zumbi?
Porque uma história precisa ser contada
De mulheres e homens de valor
Negros que nunca temeram nada
E venceram o seu opressor

Por que tu não morre Zumbi?
Porque nas “orvalhadas da noite”
No navio negreiro
Em meio a tantos açoites
Nêgo valia dinheiro

Por que tu não morre Zumbi?
Por que há um povo faceiro
Para quem trabalhar é normal
Que espera chegar fevereiro
E com samba fazer carnaval

Por que tu não morre Zumbi?
Por que todos que aqui estão
Desse povo brasileiro
Dessa pátria mãe gentil
Sabem que o negro guerreiro
Ajudou a construir o Brasil

Por que tu não morre Zumbi?
Por que para o povo brasileiro
Sou herói, sou referência
E na magia do terreiro
Sou cabaça da existência

Por que tu não morre Zumbi?
Por que desse povo brasileiro
Eu sou herói, eu sou paixão
E de fevereiro em fevereiro
Vivo em cada coração

Por que tu não morre Zumbi?
Por que do povo brasileiro
Sou elo da corrente
E só deixo de existir
Quando não morrer minha gente.





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