Canção Fúnebre
Por um filho de Xangô
Era
vinte de novembro de 1695, na Serra da Barriga, Alagoas, um canto fúnebre
ecoava tendo ao fundo o toque dos tambores:
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que tu não morre?
E
a pergunta era respondida
Por
egum que circulava na mata
Na
forma de um guerreiro que sempre vive
Dando
vida a um guerreiro que não se mata...
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
nasci guerreiro
Não
o primeiro
Mas
vou resistir.
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
antes de mim veio Ganga Zumba
E
lutou essa luta profunda
Que
vai me consumir
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
todas as negras crianças
Que
tem e terão esperanças
Aguardam
o meu porvir
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
o seio da mulher negra
Que
alimentou negro, branco e mulato
Tem
esperança que um dia a justiça chega
Justiça
de verdade e de fato
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
uma história precisa ser contada
De
mulheres e homens de valor
Negros
que nunca temeram nada
E
venceram o seu opressor
Por
que tu não morre Zumbi?
Porque
nas “orvalhadas da noite”
No
navio negreiro
Em
meio a tantos açoites
Nêgo
valia dinheiro
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que há um povo faceiro
Para
quem trabalhar é normal
Que
espera chegar fevereiro
E
com samba fazer carnaval
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que todos que aqui estão
Desse
povo brasileiro
Dessa
pátria mãe gentil
Sabem
que o negro guerreiro
Ajudou
a construir o Brasil
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que para o povo brasileiro
Sou
herói, sou referência
E
na magia do terreiro
Sou
cabaça da existência
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que desse povo brasileiro
Eu
sou herói, eu sou paixão
E
de fevereiro em fevereiro
Vivo
em cada coração
Por
que tu não morre Zumbi?
Por
que do povo brasileiro
Sou
elo da corrente
E
só deixo de existir
Quando
não morrer minha gente.
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