sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Mito da Criação

O mito da criação

“Somos todos brasileiros.”
            A frase citada acima carrega em si um elemento agregador. Traz a ideia que nós fazemos parte de um corpo único e sólido. Somos um povo. Uma nação. Isso nos parece muito claro quando olhamos as manifestações populares, sejam elas políticas, sociais ou culturais. Esse mesmo olhar, associado há um pouco de conhecimento sobre a nossa história, confirma que somos originários de uma mistura de grupos étnicos: índios, negros e brancos, logo mestiços.
            A referida frase traz também uma aura de igualdade que envolve o povo resultado dessa mistura. Ou seja, da reunião de elementos tão diferentes surge um equilíbrio que dá a todas as contribuições, sejam elas positivas ou negativas, dos grupos étnicos fundadores o mesmo peso nessa cultura nascente. A partir de então surge uma cultura que beira a perfeição, pois tem como base sentimentos de respeito e admiração entre esses grupos.
            Nesse universo perfeito o dia do Índio e o dia da Consciência Negra soam como um contrassenso. Se nossas contribuições se igualam e se nos respeitamos por que não há um dia em homenagem ao branco? Essa pergunta não tem uma resposta necessariamente difícil, mas sim complexa.
Primeiro: toda a harmonia entre os grupos étnicos formadores de nossa nação nunca existiu. Como harmonizar um grupo dominador, “o branco”, que ainda se enxerga dessa maneira, com seus dominados e necessariamente inferiores, segundo a visão do dominador: o índio, dono da terra que foi tomada, e o negro que foi escravizado e arrancado de sua terra natal. Segundo: o projeto do branco europeu era impor sua visão de mundo, sua cultura e não promover a integração de sua cultura com outras. Terceiro: apesar da condição de submissão os tornar próximos, índios e negros buscavam, nesse momento, criar mecanismos que garantissem a sobrevivência e a perpetuação de suas culturas em meio a um processo de extermínio que viviam e não estabelecer alianças para lutar contra o opressor.
            Nesse contexto, o dia do Índio e da Consciência Negra devem ser vistos no máximo como uma concessão que se fez a essas etnias em prejuízo do verdadeiro poder e da verdadeira importância que as mesmas tem para a cultura e para a construção desse país. Como falar dos medicamentos que se produzem no mundo sem citar o conhecimento e a variedade de drogas retiradas das florestas brasileiras, em especial da Floresta Amazônica. Como falar da construção da nação brasileira sem citar a mão-de-obra escrava negra que agora, ainda marginalizada, ocupa favelas e periferias das grandes cidades.
            A verdade é que não existe unidade, nem nação, nem povo. Somos uma sucessão de fraturas. Os índios têm como marca principal de sua história recente a quase extinção. Aos negros resta um lugar subalterno na história desse país e a marginalização de sua cultura. Enquanto isso há uma elite “branca” e esquizofrênica, já que somos todos mestiços, que nos impõe padrões os mais variados e completamente excludentes da grande maioria da população.
            Se quisermos ser realmente um povo, uma nação, com o mínimo de unidade há muito que fazer. As culturas negra e indígena precisam ser redefinidas a partir da verdadeira contribuição que deram e ainda dão a este país. Os padrões precisam ser redefinidos sob o risco de nos mantermos nessa esquizofrenia que exclui a maior parte da população, sem espaço nesse universo limitado dos padrões atuais.
            Então devemos transformar a afirmação em pergunta: “somos todos brasileiros?” Num Brasil “democratista” e não democrático. Onde há a obrigatoriedade da cidadania política através do voto, mas não há a cidadania social, já que não dispomos de equipamentos sociais de maneira igualitária. Onde temos o código de defesa do consumidor que nos ampara se consumimos, mas onde não há nenhum mecanismo sério que obrigue governos a promover saúde, educação e segurança de qualidade. Onde a cidadania econômica supera a política ou a social.
            Olhando o nosso passado, constatamos no nosso presente que continuamos índios sendo dizimados sistematicamente em o risco da extinção, por que hoje toda tribo que não segue os padrões é descartável. Continuamos negros, pois longe da escravidão ter um fim ela foi ampliada. Independente da etnia somos escravos que não precisam mais de grilhões para prender seus corpos. Eles fazem Plim-Plim, tocam o Funk da popozuda ou fazem o Flamengo jogar no maracanã e prendem sua mente de maneira muito mais eficaz.
            O que foi dito aqui, de maneira breve, nos faz enxergar um longo caminho a ser percorrido na construção de um povo, na criação de uma nação. Se as contribuições dos três grupos étnicos não forem equilibradas e os padrões atuais reelaborados iremos nos perguntar: somos todos brasileiros? E uma pergunta ainda irá pairar no ar sem resposta: que povo é esse?

            

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Voto Consciente



O voto consciente

Por Alexandre Santos
            Estamos em meados de setembro de mais um ano de grande importância para o povo brasileiro. Mais uma vez temos a oportunidade de fazer história. Primeiro fizemos história elegendo um operário, e hoje temos a oportunidade de fazer história elegendo uma mulher, seja do mesmo partido do operário ou não.
            O voto é um importante instrumento de manifestação política do povo. Infelizmente, tem perdido seu sentido e seu valor histórico. Fruto de lutas que custaram muitas vidas no passado, hoje ele tem sido usado nas mais variadas barganhas, que vão dos cinqüenta reais no dia da eleição aos jogos de camisas, churrascos e afins no período que antecede as eleições.
            A pergunta que não quer calar é: o que fazer para resgatar o voto e sua essência democrática? Responder tal questão não é fácil. A incredulidade que tem se abatido sobre o nosso povo, em relação aos políticos e a política feita em nosso país, nos convoca a buscarmos uma resposta imediata para essa questão. Não acredito que a resposta que buscarei dar encerre a discussão, mas teremos uma opção a mais num repertório que se renova a cada eleição.
            Gostaria de apontar como principal erro o habito de nós povo votarmos em nossos candidatos como quem assina um cheque em branco e não fiscalizar o que é feito com o mandato que damos aos nossos representantes. A desculpa mais fácil para essa atitude é a falta de tempo. Olhando a nossa volta vemos uma série de grupos que se organizam para as mais variadas atividades: religiosas, recreativas, associativas etc.
            Esse argumento então acaba com a desculpa da falta de tempo. Se a fiscalização acontecesse às conquistas que adviriam dela seriam fundamentais para uma melhor qualidade de vida para todos nós. O que também resultaria em mais tempo para as nossas outras atividades.
            Outro argumento que ouço muito é: não gosto de política. Política é a arte da escolha. Quando as pessoas dizem não gostar de política estão abrindo mão de escolher bem quem vai definir os aspectos mais importantes de sua vida, como a qualidade do ensino que seus filhos vão ter, ou a necessidade de seu bairro receber saneamento básico, ou a possibilidade de sua vida ser salva, em meio a uma doença, em um hospital público, ou seja, quando se abre mão dessa escolha se abre mão de uma vida com o mínimo de segurança.
            Nenhum de nós em sã consciência optaria por viver uma vida dessa maneira. Isso significa que agora é o tempo de mudarmos nossa postura. Ficar reclamando em casa e esperando aconteça um milagre para nos salvar é bobagem. Não temos para onde fugir, a responsabilidade pela vida que temos é nossa. Mudar isso é uma escolha, logo é política.
            Então posso resumir essa reflexão da seguinte maneira; gostar de política, se responsabilizar pelos seus atos, “fazer a coisa certa” é vida. O contrário disso pode não ser a morte, mas olhe a sua volta, causa problemas que se não são a morte a tornam profundamente dolorosa e longa.
            Depois do que foi dito o que seria então o voto consciente? Será o voto que vier pleno de responsabilidade democrática, será aquele que vier acompanhado de cobranças, de vigilância, de cidadania, de sede de justiça, de valores, de honradez, de povo. Isso sim de povo. Quando abandonamos o sagrado sentido de povo, que foi constituído historicamente dos valores citados acima e de muitos outros mais, dos quais destacaria a força para lutar por seus direitos nos perdemos em nossas escolhas.
            A proposta passa a ser nos reinventar. Para isso é bom que nós resgatemos o sentido das lutas que nos fizeram chegar aonde chegamos. Pisamos sobre um chão de conquistas que vão desde o voto até o passe livre. Olhando para elas me digam como subestimar a nossa força, como pensar que não somos capazes, como dizer: “a esperança morreu”, se a verdadeira esperança de um povo é a fagulha de vida que ainda move seu coração.
            Não existe fórmula mágica, existe trabalho. A batalha que se avizinha conta conosco, espera que saiamos de nossa apatia e estejamos prontos para lutar mais uma guerra. Será que vamos brandir nossas espadas e gritar assustando assim nossos inimigos ou será que os rostos sorridentes das placas, e os carros de som que nos despertam e perturbam nesses dias que precedem a batalha já plantaram o medo em nossos corações? De que lado você vai estar? De que lado você quer estar? Lembrem-se de que o que transforma as nossas vidas são as escolhas que fazemos. Qual a sua escolha?

Canção Fúnebre



Canção Fúnebre
Por um filho de Xangô

Era vinte de novembro de 1695, na Serra da Barriga, Alagoas, um canto fúnebre ecoava tendo ao fundo o toque dos tambores:

Por que tu não morre Zumbi?
Por que tu não morre?

E a pergunta era respondida
Por egum que circulava na mata
Na forma de um guerreiro que sempre vive
Dando vida a um guerreiro que não se mata...

Por que tu não morre Zumbi?
Porque nasci guerreiro
Não o primeiro
Mas vou resistir.

Por que tu não morre Zumbi?
Porque antes de mim veio Ganga Zumba
E lutou essa luta profunda
Que vai me consumir

Por que tu não morre Zumbi?
Porque todas as negras crianças
Que tem e terão esperanças
Aguardam o meu porvir

Por que tu não morre Zumbi?
Porque o seio da mulher negra
Que alimentou negro, branco e mulato
Tem esperança que um dia a justiça chega
Justiça de verdade e de fato

Por que tu não morre Zumbi?
Porque uma história precisa ser contada
De mulheres e homens de valor
Negros que nunca temeram nada
E venceram o seu opressor

Por que tu não morre Zumbi?
Porque nas “orvalhadas da noite”
No navio negreiro
Em meio a tantos açoites
Nêgo valia dinheiro

Por que tu não morre Zumbi?
Por que há um povo faceiro
Para quem trabalhar é normal
Que espera chegar fevereiro
E com samba fazer carnaval

Por que tu não morre Zumbi?
Por que todos que aqui estão
Desse povo brasileiro
Dessa pátria mãe gentil
Sabem que o negro guerreiro
Ajudou a construir o Brasil

Por que tu não morre Zumbi?
Por que para o povo brasileiro
Sou herói, sou referência
E na magia do terreiro
Sou cabaça da existência

Por que tu não morre Zumbi?
Por que desse povo brasileiro
Eu sou herói, eu sou paixão
E de fevereiro em fevereiro
Vivo em cada coração

Por que tu não morre Zumbi?
Por que do povo brasileiro
Sou elo da corrente
E só deixo de existir
Quando não morrer minha gente.