O mito da criação
“Somos
todos brasileiros.”
A frase citada acima carrega em si
um elemento agregador. Traz a ideia que nós fazemos parte de um corpo único e
sólido. Somos um povo. Uma nação. Isso nos parece muito claro quando olhamos as
manifestações populares, sejam elas políticas, sociais ou culturais. Esse mesmo
olhar, associado há um pouco de conhecimento sobre a nossa história, confirma
que somos originários de uma mistura de grupos étnicos: índios, negros e
brancos, logo mestiços.
A referida frase traz também uma
aura de igualdade que envolve o povo resultado dessa mistura. Ou seja, da
reunião de elementos tão diferentes surge um equilíbrio que dá a todas as
contribuições, sejam elas positivas ou negativas, dos grupos étnicos fundadores
o mesmo peso nessa cultura nascente. A partir de então surge uma cultura que
beira a perfeição, pois tem como base sentimentos de respeito e admiração entre
esses grupos.
Nesse universo perfeito o dia do
Índio e o dia da Consciência Negra soam como um contrassenso. Se nossas
contribuições se igualam e se nos respeitamos por que não há um dia em
homenagem ao branco? Essa pergunta não tem uma resposta necessariamente
difícil, mas sim complexa.
Primeiro: toda a harmonia entre os
grupos étnicos formadores de nossa nação nunca existiu. Como harmonizar um
grupo dominador, “o branco”, que ainda se enxerga dessa maneira, com seus
dominados e necessariamente inferiores, segundo a visão do dominador: o índio,
dono da terra que foi tomada, e o negro que foi escravizado e arrancado de sua
terra natal. Segundo: o projeto do branco europeu era impor sua visão de mundo,
sua cultura e não promover a integração de sua cultura com outras. Terceiro:
apesar da condição de submissão os tornar próximos, índios e negros buscavam,
nesse momento, criar mecanismos que garantissem a sobrevivência e a perpetuação
de suas culturas em meio a um processo de extermínio que viviam e não
estabelecer alianças para lutar contra o opressor.
Nesse contexto, o dia do Índio e da
Consciência Negra devem ser vistos no máximo como uma concessão que se fez a
essas etnias em prejuízo do verdadeiro poder e da verdadeira importância que as
mesmas tem para a cultura e para a construção desse país. Como falar dos
medicamentos que se produzem no mundo sem citar o conhecimento e a variedade de
drogas retiradas das florestas brasileiras, em especial da Floresta Amazônica.
Como falar da construção da nação brasileira sem citar a mão-de-obra escrava
negra que agora, ainda marginalizada, ocupa favelas e periferias das grandes
cidades.
A verdade é que não existe unidade,
nem nação, nem povo. Somos uma sucessão de fraturas. Os índios têm como marca
principal de sua história recente a quase extinção. Aos negros resta um lugar
subalterno na história desse país e a marginalização de sua cultura. Enquanto
isso há uma elite “branca” e esquizofrênica, já que somos todos mestiços, que
nos impõe padrões os mais variados e completamente excludentes da grande
maioria da população.
Se quisermos ser realmente um povo,
uma nação, com o mínimo de unidade há muito que fazer. As culturas negra e
indígena precisam ser redefinidas a partir da verdadeira contribuição que deram
e ainda dão a este país. Os padrões precisam ser redefinidos sob o risco de nos
mantermos nessa esquizofrenia que exclui a maior parte da população, sem espaço
nesse universo limitado dos padrões atuais.
Então devemos transformar a
afirmação em pergunta: “somos todos brasileiros?” Num Brasil “democratista” e
não democrático. Onde há a obrigatoriedade da cidadania política através do
voto, mas não há a cidadania social, já que não dispomos de equipamentos
sociais de maneira igualitária. Onde temos o código de defesa do consumidor que
nos ampara se consumimos, mas onde não há nenhum mecanismo sério que obrigue
governos a promover saúde, educação e segurança de qualidade. Onde a cidadania
econômica supera a política ou a social.
Olhando o nosso passado, constatamos
no nosso presente que continuamos índios sendo dizimados sistematicamente em o
risco da extinção, por que hoje toda tribo que não segue os padrões é
descartável. Continuamos negros, pois longe da escravidão ter um fim ela foi
ampliada. Independente da etnia somos escravos que não precisam mais de
grilhões para prender seus corpos. Eles fazem Plim-Plim, tocam o Funk da
popozuda ou fazem o Flamengo jogar no maracanã e prendem sua mente de maneira
muito mais eficaz.
O que foi dito aqui, de maneira
breve, nos faz enxergar um longo caminho a ser percorrido na construção de um
povo, na criação de uma nação. Se as contribuições dos três grupos étnicos não
forem equilibradas e os padrões atuais reelaborados iremos nos perguntar: somos
todos brasileiros? E uma pergunta ainda irá pairar no ar sem resposta: que povo
é esse?
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